20.4.08

perspectiva

Eu, quando nasci, pesava três e seiscentos.
Quando era pequeno, mamava como um bezerro.
Chorei uma semana até que descobrissem: o que eu tinha era fome. E foi assim, comi até ficar do meu tamanho. Comi e comi, até ficar assim. Aliás, quanto de mim não são sobras de algo que comi. Quanto de mim não sou eu, mas algum toroço de gordura branca e gosme, informe e insone, buscando existência própria e autônoma num corpo vão. Quanto de mim é contra mim. Quanto do fluxo sináptico que varre meu cérebro não carrega em si o anúncio do meu fim. Quando eu nasci, chorei de fome. Quando nasci, eu disse: “Eu!”.

E um dia, como dizem por aí, eu comi alguém. Comi com gosto. E com gosto, desde então, "eu" não gosto de ninguém. O dia em que comi alguém foi o dia em que descobri que sou como todos e não sou como ninguém. E também que não sou ninguém se não como ninguém.

E um dia, outro dia, fui membro de uma organização política revolucionária secreta. Mas sobre isso não quero falar. Entra também nesse parágrafo o dia em eu saí de casa e o dia em que bati no meu ex-padrasto. Pronto, pela milhonésima vez contei(-me) essas histórias, dizendo: “eu...”

Eu tenho ceratocone
Eu tenho acne
Eu tenho ginecomastia
Eu tenho rinite alérgica
Eu tenho caspa
Eu tenho bolhas de água nas mãos e nos pés
Eu não consigo correr porque meu joelho dói.

E estou aqui, querendo dizer sem grandes sentimentos, que espero apenas o meu fim. Mas só quando me visto de "eu".

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